terça-feira, dezembro 20, 2011

Entropia

Todo caos que nos ronda faz da gente um lugar sem significado. A bagunça faz com que a ordem natural dos acontecimentos se inverta. E quando o arranjo das coisas está ao contrário, o fato de sentir qualquer tipo de coisa nos confunde. A desordem revela a verdadeira entranha do nosso caráter. Se alteram o curso que você espera pra sua vida, a confusão que está dentro de você se revela.  E é na fenda que se abre no teu peito que pode realmente ser vista a pessoa que você esconde lá dentro.
A origem do caos está impressa na força que o seu instinto tem sobre a tua vontade, sobre o seu medidor de certo e errado. Quando não consideram o certo  e o errado apenas uma convenção.
Nós vivemos numa teia de acontecimentos imprevisíveis e incontroláveis. Carregamos a vaga sensação de um futuro já previsto pela rotina, e descartamos incoscientemente qualquer hipótese de caos. A desordem está  à espreita. Sondando os segundos dos relógios.

sábado, novembro 12, 2011

Abstração

Como pode um sentimento durar tanto tempo? Com todas as aulas de fisiologia e textos de psicologia na cabeça, acredito que a exposição à uma doença, um fato, uma pessoa, uma lembrança te faz ficar melhor em relação aquilo. É até um tipo de psicoterapia se expor às lembranças que te deixam para baixo. Ouvi relatos de que os pacientes melhoram. E se ficam como eu fiquei, realmente melhoram. Mas os sentimentos não somem. Você aprende a lidar com eles. E no auge disso tudo, eu apenas queria uma imunização. 
Meu cérebro vive da abstração. Ele recria todas as situações (somente as boas) de estarmos juntos. Constrói memórias que nunca existiram para poder fazer de você uma pessoa melhor pra mim. E esses momentos que nunca tivemos foram reconstruídos dos segundos que eu fiquei olhando pra você enquanto ainda podia te tocar. Nem tudo o que eu lembro é verdade, mas a reação que o meu cérebro desencadeia faz parecer verdade para o meu corpo. E isso gera uma coisa parecida com a saudade. 
Você virou uma fotografia. Um momento congelado. E eu sei lidar perfeitamente com toda essa lembrança, mas eu só não consigo fazê-la ir embora. Eu fico depressiva quando me lembro de você porque eu queria estar contigo, só que a interação de todas as vidas da terra, o bater da asa da borboleta de Tókio, e até mesmo Deus não quis que ficássemos juntos. Se nenhum deles quiseram, então por que é que eu não posso simplesmente te esquecer? Essa capacidade de ficar criando situações que nunca presenciamos não vai me ajudar em nada disso. Eu quero te abstrair, não te recriar.

sexta-feira, setembro 30, 2011

A predisposição do amor

O coração bate até mesmo quando não está apaixonado. Apesar da paixão ser considerada um combustível potente por muitos, talvez não seja bem assim. Existe um sentimento anterior a paixão e ao amor que daremos o nome de sentimento latente. Por que latente? Porque esse sentimento está oculto até mesmo para a pessoa que está sentindo. Ela sabe que sente, mas não sabe definir o que sente.
Esse sentimento latente se manifesta quando você sente um prazer e um conforto imenso de estar ao lado de uma pessoa que você nem sequer conhece direito, mas tem a sensação de que sempre estiveram por perto. Se pudéssemos falar para a pessoa uma frase que defina o que sentimos, essa frase seria "eu sinto uma lacuna por você" ou "eu estou completamente confuso por você". 
O sentimento latente é mais intrigante, sem compromisso e pode durar apenas um dia ou um mês. E se somado com tristeza pode até ser confundido com um repentino amor. É um sentimento que chega com uma manha sutilmente ardil, é confuso. Ele te deixa desconfortavelmente à vontade perto de alguém. 
Esse sentimento é bem mais energético e repetitivo quando se está sozinho. E quando você o sente por alguém estando comprometido, ele vira o sentimento "poderia ser". E pode ser dissipado facilmente já que não é tão intenso quanto a paixão. A única coisa a fazer é perder o foco. Perdendo o foco, não há mais sentido desse sentimento existir porque ele se alimenta do tempo que você passa pensando no que poderia ser se esse sentimento fosse outro. Não existindo foco, não existe sentimento latente. 
A probabilidade desse sentimento virar amor é muito grande. Só que um amor de 40. Aquele amor que não precisa abalar o mundo da outra pessoa pra existir. Um amor que existe pelo compromisso, pelo afeto e pelo carinho que se tem pela outra pessoa. 
O sentimento latente é uma predisposição ao amor. É quando ele evolui e você sabe que pode amar alguém sem clichês, sem competir com o vizinho a imensidão do amor, sem se sentir inseguro, contrariado ou explodindo de emoção. 
O sentimento latente é o estímulo, e em alguns casos o amor é a resposta.

Sentimento Repetido

Se você tiver paciência para prestar atenção na maneira como os sentimentos te influenciam, você poderia perceber que as tuas ações e reações se tornam cada vez mais pensadas e menos sentidas. Nós precisamos entender o que estamos sentindo, e para entender temos que ter sentido aquilo pelo menos algumas vezes na vida. Acredito que também exista um conhecimento adquirido pelos nossos pais, e que a maneira como eles nos educam também influencia na maneira como sentiremos as coisas. Tem pais que ensinam os filhos a aceitarem as decepções de uma forma mais branda. Coisa que o tempo pode curar. Já outros pais entendem que o fracasso é algo inadmissível, e que não se pode aceitar a derrota nunca. Nenhum dos dois está errado. Só que dependendo da ênfase que for dada, o filho pode entender que perder sempre é normal ou insuportável. E tudo o que precisamos é de um meio-termo. 
O conhecimento da emoção que estamos sentindo te livra de viver uma situação que já foi vivida. Você conhece o roteiro. Sabe que se alguém te abandonar, você irá se sentir magoado, com raiva, o coração acelerado e uma coisa ruim no estômago e no peito. Você precisa entender isso. Eu sei que não é fácil. Mas se você voltar os olhos um pouco mais para dentro de si mesmo, verá que a mágoa e a raiva passam. O coração desacelera e a coisa ruim no estômago some. 
As pessoas não possuem uma bola de cristal, é preciso entender que você não pode controlar o sentimento que alguém poderá te causar, mas você pode conhecê-lo. E se você conhecer esse sentimento, é bem mais fácil de controlá-lo. Alguns chamam isso de mecanismo de defesa. Por exemplo: Quando você ama demais alguém, e de uma hora pra outra o relacionamento finda, você fica arrasado. Você sofre, xinga, chora, fica remoendo o término do romance por um mês e depois isso acaba. Pronto. Você já não sente mais nada. Quando você inicia outro relacionamento, você já sabe quais são as coisas que te machucam, então você as evita. E mesmo que esteja preste a sentir toda aquela insegurança de novo, você simplesmente para de pensar naquilo e se distrai com outras coisas mais importantes. Você já sabe como agir diante da mágoa, e sabe o que fazer pra ela passar.
As coisas que passamos durante o dia são importantes para aprendermos a conhecer os nossos sentimentos, não estou dizendo que isso fará com que você se conheça melhor, mas já é um bom começo. Nós precisamos prestar mais atenção nas emoções que as pessoas causam na gente. Isso quase sempre some depois de um tempo. Não importa quando tempo, sempre some. Também não estou falando pra ser cruel com todo mundo e sair fazendo o que bem entender. Até porque não é todo mundo que tem paciência de prestar atenção naquilo que sente, e dependendo do que você fizer você pode se dar mal. Estou me referindo mais às coisas que nos fazem sofrer. Que nos deixam com o coração partido. Essas coisas merecem ser conhecidas, analisadas e arquivadas para nos ajudar depois, se por acaso precisarmos fazer uma varredura completa dentro de nós mesmos para saber como lidar ou não lidar com situações futuras. Não é guardar rancor. É guardar experiências (depois de entendê-las).

terça-feira, setembro 13, 2011

Amor Volúvel

É raro o amor surgir em duas pessoas ao mesmo tempo. Tem gente que chama isso de alma gêmea. Eu chamo de sorte. Muitas pessoas estão sem sorte  nesse momento. Ou então acharam que esperar o tempo certo era o ideal e faria com que a sua metade aparecesse. Decidiram esperar, e depois de alguns anos queriam alguém do tempo errado pra ficar junto. 
Tem gente que se esforça tanto pra ser amado por alguém que não o ama que perde a noção do que é o amor em si. Às vezes você precisa das dores da rejeição pra saber distinguir quem gosta de você de quem não gosta. E muitas vezes o gostar ainda é confundido com essa indiferença porque nos fizeram acreditar que as pessoas são orgulhosas demais para admitirem o que sentem ou que estão confusas.
O problema de não ter certeza é que você acaba dispensando uma vida que seria legal de se viver junto pela comodidade de estar comprometido com alguém que não se encaixa em você, pelo fato de que os anos decifraram todos seus segredos e que eles não teriam que fingir um começo para ser sincero no final. 
Ninguém mais sabe o que é o amor. Estamos todos confusos. Há conceitos demais. As revistas que trazem reportagens sobre o comportamento humano, os filmes, os livros, criaram um manual do amor. Só é amor o que bate com os itens, o que aparece na novela, o que está escrito nos livros.
O mais estranho de se ter sentimento por alguém pela definição do mundo é que o amor acaba. Vai um, vem outro. Se você não ama mais alguém, amará outra pessoa. E isso sempre acontece. Parece que o amor é uma estrada de mão dupla, onde só tem um carro que vai e muitos outros carros que passam.  Mas que deveria ter só um outro carro na contramão.
A realidade é que nunca estamos satisfeitos com o que sentimos. Pensamos que poderia ser mais: Mais legal, mais divertido, mais forte, mais intenso, mais romântico, mais sexo. Começamos com pouco, evoluímos pra muito e acabamos em nada. E o ciclo se repete infinitas vezes.
Será mesmo que o amor é tão volátil? Quando pensamos no amor, imaginamos algo permanente. Algo constante. Mas a forma como começa e como acaba e como começa de novo, faz parecer o amor algo inconstante. Qual seria então o verdadeiro sentimento?
Tem vezes que temos uma atração tão forte por alguém que a facilidade de sair um eu te amo bem sonoro se multiplica em zilhões de vezes. Você tem até o direito de sentir uma coisa estranha no estômago, mas quando passa é embaraçoso. É fútil. Como se você tivesse pego uma doença por uma semana, ou por meses.
Conheci pessoas que conseguiam amar mais de uma pessoa. A argumentação foi plausível, mas o sentimento é diferente. Sentir atração por alguém é facilmente confundido com amor. Até porque a atração, no sentido real da palavra, é uma 1. Força que faz com que um corpo se desloque para ir a outro. Como lutar contra essa força? Como evitar essa força? Como não confundí-la com o amor? É triste dizer, mas só o tempo e o arrependimento pra responder. Mas a gente não se arrepende de tudo também. Só quando você viu que o seu erro foi, de fato, a maior burrice que você já fez. Mas o que é certo e errado quando se gosta de alguém? Eu não sei. Só sei as coisas que não são legais de serem feitas. E mesmo assim, se o impulso for muito forte, o teu raciocínio vai fazer uma viagem pra china. E te deixa aqui, sem o lado racional da vida.  
E então, o que é o amor?

sábado, setembro 03, 2011

Versão Original

Não é difícil compreender a vida se você é um espectador. Eu sempre quis entender o objetivo de viver sem ter que procurar na literatura uma opinião que se molde ao meu pensamento ou que molde o meu pensamento. Aceitar uma opinião formada, escrita e publicada é bem mais fácil do que tentar compreender o que se é apenas olhando de dentro pra dentro. Eu sempre desconfiei muito das pessoas. E sempre falei sobre o amor com desengano. Foram as definições que existem que me fizeram ter essa falta de conceitos pra entender a vida. Eu tenho uma ótica de dicionário, não de vida. Todas as minhas opiniões foram emolduradas e moldadas por outras pessoas. O que me assemelha, eu guardo. O que me contradiz, eu descarto. Mas sempre em cima da opinião de alguém. Não importa o que eu fale, eu sempre terei a palavra de alguém na boca. 
Como entender a vida sem as definições? Sem as racionalizações? Eu entendo que nós precisamos da fala e da escrita, e que é preciso definir os comportamentos, ajustar um padrão. Mas ás vezes parece que todas essas palavras e jeitos me excluem, e que a forma como eu sinto as coisas, se não for parecida com toda essa experiência de 4 bilhões de anos que a terra carrega, não se é. Não existe. Ou simplesmente me caracterizam como uma sociopata, ou alguém com um transtorno qualquer. Não é querer ser diferente. É ser uma peça quadrada e sem encaixe pra esse quebra-cabeça que existe. Mas, ainda assim, ser uma peça. Igual aos outros.
Como ter uma visão do mundo e das pessoas sendo alguém sem influência externa? Como entender o sentimento cru? Eu não quero desprezar a nossa língua e a nossa bagagem de aprendizados, só queria saber como é o amor e as outras coisas apenas conhecendo-os por dentro de dentro. Não sei como isso seria possível, mas eu apenas não quero mais uma versão.

terça-feira, agosto 16, 2011

O enterro do amor


Tem um sábado que guardou todos os sentimentos pra ele. E embora eu gritasse doze vezes que não queria vê-la partir, meu coração batia doze vezes mais rápido ao abraçá-lo. Eu senti o vazio ao ver parte do meu coração naquele caixão e as asas das borboletas batendo no meu estômago esperando ele chegar. Um dia cheio de despedidas. Tchaus breves, e pra sempre. Uma despedida que me enterrou junto, e que até hoje cavo dentro de mim tentando achar, de novo, o coração. Acho que me confundi, eu pensei que o amor tivesse morrido naquele dia. E você lá. O amor morrendo, e você lá. Eu tonta, e você lá. Eu pálida, e você lá. Eu desnorteada, e você lá. Eu vazia, e você lá. Eu sozinha, e o adeus lá. Eu e o adeus juntos. Eu, e Deus com ela. Eu e o amor morrendo. Eu e a tontura. Eu e a palidez. Eu sem chão. Eu e o vazio. Eu e o adeus e ela com Deus. E eu? E eu? Eu não sei responder. 
O amor morreu no dia doze de dezembro de dois mil e nove. Morreu de insuficiência. Morreu de câncer. Morreu por descuido. Morreu de tristeza. Morreu de vazio. Morreu de descaso. Morreu de coração parado. E vai ficar pra sempre enterrado.

quinta-feira, junho 09, 2011

Desconforto

O que você pensa influencia muito na maneira como as coisas acontecerão. Eu fico analisando as pessoas e a forma como elas se relacionam com a própria vida, e me vejo afundando num mar de probabilidades. Será que elas sabem exatamente aonde estão indo ou só eu que pareço estar flutuando nessa imensidão de escolhas?
Dizem que é importante traçar objetivos. Traçar uma reta até as coisas que realmente importam. Mas e quando a tradução do que você é também é uma interrogação? 
Parece ser tão fácil ter objetivo quando você sabe o que é realmente importante. E como eu fico pensando que é uma sorte estar vivo nesse mundo, nada consegue ter tanta importância (exceto a saúde e a segurança das pessoas que eu amo). Todo mundo escolheu algo, eu que não escolhi nada fico com a filosofia shakesperiana na cabeça, parafraseada: "Qualquer coisa serve". Não que eu vá optar seguir uma vida sem caráter algum, eu sei a relevância de um bom relacionamento com os "bons atos", eu só não sei o que fazer com o resto de tudo. 
A dedicação que uma pessoa tem pelas coisas que faz muda todo o cenário em volta dela. Apesar de que eu vejo a nossa sociedade com olhos nebulosos. As coisas verdadeiras estão embaçadas, e eu não consigo ver claramente a essência que faz com que os atos de todos tenham algum significado.
Eu procuro alguma coisa, mas eu não sei o que encontrar. Tento entender por que a nossa sociedade funciona dessa maneira, e se eu estou de fato fora de órbita. Se eles sabem o que estão fazendo, por que eu não sei? Eu li num livro que quando perdemos um de nossos pais, aquele com quem temos uma conexão mais intensa, é normal sentir-se perdido e desajustado. Só que eu não quero por a culpa apenas nisso, eu entendo o tamanho (oitenta por cento) da parcela que a morte da minha mãe tem no meu atual estado de ver o mundo, mas talvez tenha algo mais. Ou talvez seja unicamente isso, porque eu me lembro de ser outra pessoa quando ela ainda estava aqui. Eu tinha um conflito mais ameno em relação ao significado de tudo. Não existia toda essa perturbação e auto-exílio. O desconforto era causado pela falta de pessoas, não pelo excesso. Agora multidões me incomodam. Pessoas superficiais me desconfortam. Eu desaprendi a conversar. Fico imaginando o que eu poderia dizer, e como dizer, mas o porquê dizer acaba não me deixando falar sobre coisas que normalmente são ditas numa conversa. O que eu poderia falar? Sobre o que as pessoas normalmente conversam? Eu já não sei mais. E o que eu tenho a dizer não é tão interessante pra quem não está também fora de órbita.
Quase ninguém se interessa pela sua confusão. Ninguém é obrigado também. O mundo vive em total desordem acobertado por uma legislação que mal funciona, quem se interessaria em saber se a vida do próximo está uma bagunça? Cada um é o próprio sol. Só que  ninguém admite isso. Fingimos ser altruístas, e a nossa sociedade parece funcionar muito bem assim. Espero estar errada.