quarta-feira, agosto 17, 2022

Vão

O tempo desse lugar é pouco
A hora é torta
Passante 
Esbarra no pensamento
Cria um vão

De cá, vejo o abismo
Piso na borda
Encaro 

Busco o de dentro
Vejo escuridão
Vazios empilhados

Retomo
Situo o chão
E me recolho

domingo, agosto 14, 2022

Recorrência

 Eu já estive aqui. Já vivi essa parte da história, e por que ela retorna? O que será que eu preciso aprender? Quantas vezes eu preciso me encolher, me espremer para caber?

De tantas voltas, porque não faço, eu, a minha própria órbita? Por que não pego a luta pelo outro e faço dela a minha glória?

É esse limbo da indecisão, a falta de sujeito com nome próprio, ativo na frase. A falta do imperativo. Falta desse pronome em primeira pessoa. A falta do eu. 

O que eu decido? Que consequência eu banco?

Do que eu desisto? É sempre do Eu. 

segunda-feira, abril 16, 2018

Desconforto

É como se eu queimasse de febre,
Como se de súbito a pele ardesse a ponto de quase rasgar,
E o peito explodisse em agonia.
Como se nenhum lugar me coubesse,
e eu já não fizesse morada em mim.

É como se eu me desse as costas,
e deixasse meu corpo absorto,
permitindo-te fazer o que quiser de mim.
Como se eu não existisse,
E a vida se esvaísse e eu, enfim,
Não pertencesse mais a mim.

"Se existe Deus em agonia, manda essa cavalaria que hoje a fé me abandonou."

sábado, novembro 18, 2017

Oito vidas que Perecem

Quando a vida lhe sorri na primeira vez
E na segunda vez te dá um aperto de mão
Parece pouco
Parece fraco
Parece estranho
Parece frio.

Mas se na terceira a vida concede assunto
E na quarta vez lhe premia com afeto
Parece sorte
Parece incrível
Parece amizade
Parece paixão.

E aí na quinta vez a vida é seu corpo
E na sexta chance a vida é sua alma
Parece arriscado
Parece louco
Parece muito
Parece vertigem.

Porém na sétima vida retorna a realidade
Que na oitava se transforma em oportunidade
Parece triste
Parece injusto
Parece bom
Parece eterno.

É, nada na vida é o que parece.

(A. B)

quarta-feira, novembro 15, 2017

Sobre as águas que correm para o noroeste

Às vezes gostaria de pensar na beleza da vida
Como um remanso de água limpa e imperturbável
Mas a incerteza do mundo é um rio turvo
Onde não se vê mais que um palmo à sua frente

A água comportada que respeita as vontades humanas
Vira enchente sem a menor cerimônia
Correnteza forte demais para represar com a razão
Tanto bate que fura areia mole e pedra dura

Das muitas cheias que passam
As mais excepcionais são tão difíceis de prever
Que mesmo a casa edificada na área mais alta
Não fica isenta de experimentar da força do rio

E depois que tudo passa tão rápido
E o rio segue seu curso natural
O seu destino manifesto até o mar
Ficam as marcas nas árvores e barrancos
E fica a preocupação: em que nível a água vai bater
Quando alagar meu coração da próxima vez?

(A.B)

sexta-feira, abril 28, 2017

Eu desapontei o amor

Existem esses dias cinzentos em que o frio chega sem você se dar conta de que a estação já virou, de que já é inverno. Nos relacionamentos com as pessoas parece não ser diferente. Um dia a vida chega repentinamente e bate na sua porta pra mostrar que alguma coisa mudou, que as coisas não são mais como antes. Você não sabe ao certo o que poderia ser em meio a tanto "se": se foram as brigas repetidas; se foram as exigências não cumpridas (ou cumpridas); se foi a distância maior do que a distância física; se foram as cobranças por termos melhores; se foram as discordâncias ou as concordâncias; se foi realmente o tempo ou diversas e inúmeras outras situações. 
A questão de tentar fazer o outro te entender e te aceitar sempre foi cansativa em um relacionamento. E talvez essas tentativas de fazer o outro ver o seu ponto de vista acaba, ainda que pelo cansaço, mudando a outra pessoa. E de repente, a pessoa que você conheceu no início some como se tivesse sido compactada no meio das palavras "me aceita como eu sou". Eu estraguei uma pessoa assim, e tenho consciência disso. 
Eu queria uma vida diferente da que eu havia vivido alguns anos atrás. Uma vida que pudesse ser fundada na tranquilidade e na paz. Mas eu me apaixonei por uma pessoa que era movimento, que era velocidade. E da mesma maneira que foi difícil pra ele saber lidar comigo, foi difícil pra mim também saber lidar com ele. E nós entramos em vários embates. 
Eu não sei até que ponto nós devemos aceitar e relevar comportamentos. Até que ponto podemos interferir na maneira que cada um tem de enxergar a vida e o mundo ao seu redor. As pessoas dizem que temos que ser completude e buscarmos viver a vida da forma mais simples. Quando digo simples, refiro-me ao modo de sempre tentarmos desenrolar os nós sem atrito, respeitando o outro e os seus direitos. Sabendo colocar-se no lugar de cada um e não ultrapassar os limites tentando impor o nosso ponto de vista. Sempre estarmos de acordo e em plena paz de que podemos discordar e ainda ficarmos bem. 
E foi tentando demonstrar esse mesmo ponto de vista que percebi que eu impus à pessoa pela qual me apaixonei essas mesmas condições. Eu usei vários termos referindo-me a liberdade, a confiança, ao amor para provar que eu estava certa e convicta das minhas afirmações, que eu compactei o carinho e o cuidado que ele tinha por mim. Eu o soterrei de uma tal maneira que ele optou por se tornar invisível, justamente porque não importava a mudança que ele fizesse, eu ainda acharia que qualquer ato que ele fizesse arruinaria a minha liberdade, quando na realidade ele só queria fazer parte. 
Eu ainda quero paz. Ainda quero tranquilidade. E quero ainda mais que nós possamos voltar a sermos tão carinhosos quanto éramos no início e discutir da forma mais pacífica que existe a melhor maneira para cada um ser a pessoa que se é e ainda assim ficarmos juntos.
Eu sei que eu errei feio, mas parafraseando um amigo, eu errei tentando acertar. E peço desculpas por tê-lo soterrado com as imposições do meu discurso. Eu racionalizei demais os meus sentimentos e antes mesmos de te conhecer, eu tinha vários pontos imutáveis dentro de mim. Eu estava querendo tanto reafirmá-los que não deixei espaço para que você os visse por si mesmo e decidisse por si só a melhor maneira de agir. E eu sinto profundamente por isso e peço desculpa.

"You could still be what you want to be, what you said you were when I met you, when you met me."

terça-feira, abril 11, 2017

O retorno do mesmo

Nietzsche algumas vezes discorreu sobre a lei do eterno retorno, demonstrando que a vida está limitada a um número finito de acontecimentos, e sendo assim, escreveu: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência". 
Trazendo esse conceito para o nosso cotidiano, eu percebi que a nossa vida em vários momentos é uma repetição, ainda que com algumas nuances diferentes. Eu costumava achar que era uma oportunidade de tomar atitudes diferentes quando essas mesmas histórias, ainda que com outros personagens, aconteciam. E mesmo se houvesse alguma decisão diferente, a história tornava a se repetir. E então, as decisões eventualmente se repetiam também. 
Existe uma certa atemporalidade nessas repetições. E eu acredito que esse eterno retorno seja parte do nosso subconsciente para reafirmar algo aprendido direta ou indiretamente durante a nossa vida. Como se aquela situação devesse ser vivenciada sob diferentes formas,  infinitas vezes para firmar o alicerce das nossas (mesmas e repetidas) decisões,  visto que parece haver uma necessidade de complementaridade, onde se tem que passar pela dor e pelo prazer para podermos enfim ter um marco realmente reconhecido e assentado no nosso subconsciente. 


quinta-feira, dezembro 15, 2016

Equação

Quando a porta abre e o lampejo dos dentes ardem os olhos
feito um clarão de adornos que faz doer o coração
A marca do palmo que mede as distâncias dos centímetros
viram quilômetros extrapolados

Pura estatística enviesada, matemática sem vergonha
Todo mundo fez as contas, toda essa gente vê a nossa soma
Vê o mundo que nos divide e que se multiplicasse o que a gente tem
nós seríamos o mesmo.

E ao mesmo tempo seríamos essa raiz quadrada de números quebrados,
porque não somos inteiros
Seríamos o resultado que deu errado nessa equação porque em números negativos,
quanto mais se soma, maior se torna a perda.

Mas o que essa gente toda não vê é que nesse mundo de números infinitos,
nós somos apenas uma estimativa.




domingo, outubro 09, 2016

Zumbido

Palavra, tom e gesto
Perco e quero desafinar o som
E cancelar o pulso do desassossego
Se esse é o preço, ei de divagar
No mar dessas incertezas
E me deixar levar pelo acaso do ser

Que impedido de ver, esquece que supõe que
O estar só é mais que um dó na escala de Caetano
E que sem planos há de perder a vontade de ter,

E já não sei mais o porquê, mas às vezes viver
Parece que dói tanto

Cadê o lugar que trouxestes pra me acalmar?
Se estou tão melhor ao perder,
Então me diz: por que não sinto vibrar meu coração?

Me dê sua mão, e me faz entender que o melhor de viver
É poder esquecer de antemão

Verbo, toque e zumbido
Descubro o vão dessas certezas
E contraio o nó dado na leveza de ser
Que é tão incompleto de ver que devo inspirar
O ar sem delicadeza
E me deixar inflar de erros por esquecer

Que no verbo incauto do dizer,
Não há lá se não houver notas pra tocar
Os ensaios vazios de coerência e de som

E mesmo se eu soubesse o porquê,
às vezes viver causa uma dor e tanto

Esqueça que reinventamos o  lugar,
Se o que dizes o faz apenas por dizer ,
Então por quê demonstras o contrário em vão?

Recolha a sua mão, e deixe-me ver que a vida é
história vivida para libertar o nosso coração



domingo, julho 24, 2016

Dedução

Dizem que o coração é apenas um músculo que bate para fazer o seu sangue circular. Disseram que é a nossa cabeça que inventa todas as coisas do corpo, e que não se estendem além disso. Que um amontoado de células nervosas movem todos os seus sentimentos e pensamentos.

Mas por que, diante de toda essa introjeção de reflexos, você que é a imagem que vejo de mim, parte externa de quem eu sou, funciona como um segmento que ajuda a controlar os batimentos do meu coração?

Dizem que é ato impensado. Disseram que alguns sentimentos são irracionais. Que o corpo responde instintivamente à vida por causa do aprendizado riscados nas árvores genealógicas do ser humano.

Mas por que, na árvore que cresce a história da minha vida, você veio veio para riscar uma linha e plantar uma semente em mim?

Dizem que o amor cresce feito árvore de casca suberosa pra ser marcada ao resistir aos intempéries da vida. Disseram que as linhas não fazem o amor, elas o entrecruzam para criar novos traços na história do mundo.

Então eu entendi, olhando pra você através de mim, todas as formas abstratas que te expressam como ser humano. E que, se não é o amor que realmente se expressa pelo coração, as minhas sinapses criaram um campo magnético com um raio tão grande que te alcançou.

E você me encontrou.





segunda-feira, setembro 07, 2015

Quadrante das horas























Ele sabe ajustar os ponteiros do relógio para desorientar os instantes, tornando-os tão devastadores e bagunçados que perdem o seu sentido horário, não sabendo mais para que lado devem seguir. Sabe que no meio dos meus segundos, existe um intervalo que confunde o lugar das mãos, e que em horas assim, as minhas pernas já não sabem o que fazem: se fogem ou se abrem um buraco no chão pra se fincarem feito raízes, e dali não saírem nunca mais.
Ele sabe provocar as pausas no tempo deslizando os dedos entre os minutos, apertando as agulhas contra os quadrantes, fazendo o relógio parar e indicar que ele pode ficar naquele instante por horas, e eu praticamente imploro pelo sentido contrário dos ponteiros para deixar o tempo voltar, e eu então poder arrumar o lugar pra ele poder, enfim, ficar.



domingo, abril 12, 2015

Sombra

De repente, eu me escondi na sombra, e vi o meu corpo, coberto de abstrações, passear pelas estórias que eu havia criado pra mim e desapareci no esquecimento das coisas boas que não acontecem. Por comparação, eu vejo que existe uma luta necessária para viver dentro dos sonhos bons, e que talvez seja uma batalha que não pode ser lutada por ou pra mim. O tempo é aliado de quem nessas horas? Existe uma espada pra ser levantada por mim nessa guerra de querer ganhar todos os clichês?
Eu sei que não existem moldes corretos a serem seguidos porque cada sociedade cria e se baseia no seu próprio modelo, e que esse estereótipo que eu quis pra mim advém das coisas sentidas por querer imitar algum cotidiano que eu acredito que serviria pra me encaixar dentro do mundo de um só que eu inventei.
Deveria ser fácil ser o espectro que anda entre as vidas que eu teria vivido, que eu me vejo vivendo e que não se tornam realidade, mas eu virei a sombra que geralmente some no escuro que ninguém vê, e que se adequa a qualquer feixe de luz. Não questiono a resiliência, indago as atitudes. O que esse mar de palavras vai fazer com a gente? O que essa imensidão de lembranças vai fazer comigo?
Eu espero profundamente que a vida não seja cíclica, e que na linearidade das coisas que acontecem, eu possa realmente deixar algumas coisas pra trás: o tipo de amor que machuca, os abraços que deixam uma falta que sufoca, as surras beijos que nunca mais serão dadas, as brincadeiras que não serão mais feitas, as mentiras que foram ditas, as vezes que me encolhi na cama de tanto chorar, o desespero de não entender, a impotência de não poder lutar, os apelidos, os lugares que não serão mais visitados, os momentos de estranheza, as palavras que doem, a angustia que dilacera o peito, os sentimentos que não duram e a tristeza de desistir.


"Eu pensei em deixar você, me livrar da dor e voar. Eu pensei em deixar você, me livrar da dor e crescer..."






domingo, fevereiro 22, 2015

Chiesta

Eu fiquei me perguntando se havia telefone em Manaus.
Se há lugar do lado. Se tinha um lugar no carro.
Se ainda estava dentro do abraço.


Indaguei-me se ao menos havia um espaço, um lugar no altar.
Se há um lugar pros dedos, um espaço pros beijos.
Se havia um assento marcado, um convite guardado.


Perguntei se tem vaga pro riso, um canto escondido.
Se algum avião poderia me levar embora.
Se alguém não me deixaria passar da porta.


Quis entender o sentido, tão unidirecional, do egoísmo.


Tarja preta



Tarja preta


A minha felicidade está dividida em 28 pedaços
que se espalham em uma caixa preta, e se dissolvem
em sucos gástricos de tristeza.

Partes dosadas que não me livram do desalento dos
dias contados em que hei de pensar na morte.
E que o sinônimo de ser forte é ter olhar triste,
caminhar hesitante e um pesar na sorte.


Metades tomadas por inteiro pra ter a fixada
adinamia arrancada do peito pelos intervalos de clarão
e noite das horas plantadas no corpo lacerado.


Um todo contristado feito de refúgio e coração.
Repartido por horários,
Repetido nos vocabulários,
Como máculas de desistência e substituição.


Um meio de fechar o olhos,
e pedir que o tempo páre.
Uma parte destoada da melancolia.
E um todo que diverge da alegria desses dias.

Desabitado de mim

O fato é que eu não consigo esquecer alguns detalhes, uns contornos também. Pedaços inteiros.
O coração está retraído e distraído com tantos impasses, tamanhos embates esses que fazem do sentimento essa prisão. Possuo grades contorcidas no peito, e estas me rasgam a pele.
O que te lembras quando digo: S-I-M-P-L-I-C-I-D-A-D-E.
São as coisas singelas. As coisas pequenas que contam: Esse seu olhar, essa sua boca.
Coisas pequenas, meu caro. Coisas que rodam a vida.
Então vem o descontrole, e é pelo tamanho descuido com as palavras que deixo o peito nesse imenso devoluto. O vazio de não-saber. Que deixo este desmedido corpo desabitado de mim. Ora cansado, ora exausto. E outrora espalhado por estas ruas que passo de olhos fechados.
Ruas que me lembram as chuvas e as brigas. O silêncio e os sorrisos.
Ruas que são feitas de Barros, Osório e Filho.

Cartas de amigos

Cartas de amigos


De: Rafinha.

Date: Sat, 6 Sep 2008 06:01:26


"Sabe, queria te dar um abraço bem forte e verdadeiro, desses bem apertado e cheios de sentimentos para quando te largar tirar de ti toda essa falta, tristeza e dor que sentes. Infelizmente acho que a distância me impede, mas como eu queria isso...como queria ver alguém que me trata com tanto carinho sem ao menos ter contato pessoal sorrir o mais belo dos sorrisos, ver um brilho a mais em teu olhar, enfim, ver-te feliz. Fica sempre bem, menina mais bonita que já vi. Adoro você, mesmo na distância."


Resposta:


De: Carol

Date: Sat, 6 Sep 2008 06:01:26







Invertido

É o inverso. Reverso. Contrário.
O lado oposto do desgosto.
O corpo do avesso.


Sorrisos.
Inúmeros deles.
E o teu como vaga lembrança preenchendo o vazio.

Rodopios

Até inconciente sente.
Pesado de lembrança,
cansado dessa apatia
E da lassidão latente das horas,
sem ver-te.

Pílula simulando a quietude,
é como parar de sentir,
E nos rodopios das ruas
Um sinal de fogo
Fugindo de carro.

Escurecendo os atalhos,
e as esquinas em retalhos
Saudando o desespero
De braços abertos e
O vazio do dia sem você.

Entrelinhas


Correndo
Entre os
Zéfiros,
Afastado dos seus
Ruídos.

{E.M}